Pedalando para Santiago de Compostela – Espanha

Superação, resistência e transformação

Foi o brilho do olhar de uma pessoa que já havia percorrido o Caminho de Santiago de Compostela que despertou em Fernando Resende a vontade de fazer essa viagem. Mas ele preferiu ir pedalando com sua bicicleta carinhosamente batizada de La Poderosa. Preparou-se subindo e descendo a Praça do Papa inúmeras vezes carregando garrafa pet cheia de água para simular o peso da bagagem que carregaria. Depois de um ano planejando, embarcou no avião com sua mala-bike. No primeiro dia de viagem, já se enturmou com outros ciclistas. Uhuuuuu que alegria, tudo certo! No segundo dia, o câmbio da bicicleta quebrou e ele se viu sozinho e sem ter como seguir adiante. Chorou muito, foi consolado por um francês sem falar a língua dele, conseguiu um “santo” para ajudá-lo a reparar a bike e seguiu viagem. Ele gastou cerca de 17 dias para percorrer o caminho e venceu o desafio se hospedando em albergues da rede pública e privada e conhecendo vários pueblos medievais. Essa história maravilhosa de superação e transformação vai ser contada pelo próprio Fernando na entrevista abaixo que está recheada de informações e dicas importantes para quem pretende fazer o mesmo! As fotos lindas foram cedidas por ele.

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Dicas da Cabrita: Como você resolveu fazer o Caminho de Santiago de Compostela?

Fernando Resende: Lembro de ter ouvido falar do Caminho certa vez e fiquei muito impressionado. Acho que foi uma entrevista de alguém que tinha percorrido o Caminho a pé (o jeito mais tradicional de percorrê-lo) e contava com um brilho tão grande nos olhos que me despertou o interesse. Coloquei na cabeça que um dia faria esse caminho, um dia… Até que a oportunidade surgiu. Estava num período de reflexão, de mudanças, e acho que tudo isso contribuiu um pouco pra decidir fazê-lo. Acho que, na verdade, não fui eu quem escolheu o Caminho, acho que foi ele que me escolheu.

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Fernando percorrendo o caminho de Santiago de Compostela de bike

Dicas da Cabrita: Como foi o planejamento?

Fernando Resende: Um ano antes das férias comecei a pesquisar. Desde o início já sabia que seria de bike. Não uma bike qualquer. Tinha que ser a MINHA bike: La Poderosa. A bike que ganhei com 12 anos de idade e que foi minha companheira de aventuras. Pesquisei muito na internet e conversei com alguns peregrinos. Muitas perguntas, muitas respostas, muitos ‘causos’, muito incentivo, muitas dicas… Ninguém parecia voltar de lá do mesmo jeito que saiu.

Dicas da Cabrita: Como preparou La Poderosa para a viagem?

Fernando Resende: Fiz alguns poucos upgrades nela, comprei equipamentos que eu não tinha e comecei a treinar todos os dias carregando garrafas pet cheias em alforjes (espécies de bolsas/mochilas que são colocadas na bike para levar as bagagens) que simulavam o peso da bagagem que eu levaria na viagem. Foram vários sobe-desce na Praça do Papa!

Dicas da Cabrita: Quais as dicas para levar a bike no avião?

Fernando Resende: Comprei uma mala-bike, que é uma mala especial para transportar a bicicleta. A bike vai semi-desmontada, sem as rodas e pedais. Como era uma mala não-rígida, alguns cuidados são importantes como proteger as partes mais sensíveis (passadores, manetes, câmbios). Fui pela TAP e não paguei taxa extra. La Poderosa foi dentro da franquia da bagagem normal, sem problemas. Mas é importante entrar em contato com a companhia aérea antes e se informar quanto a isso. Não esquecer de levar a nota fiscal da bike para, na volta, não ser surpreendido com a alfândega querendo taxá-la como produto de importação.

Dicas da Cabrita: Qual roteiro você escolheu?

Fernando Resende: São vários os caminhos que levam à Santiago de Compostela. Tem o Caminho Francês, o Caminho Português, o Caminho do Norte. Isso porque vinham peregrinos de várias partes diferentes da Europa o que fez surgir várias rotas até Santiago. Decidi pelo caminho tradicional que é o francês partindo de Saint-Jean-Pied-de-Port. O percurso cruza a Espanha de leste a oeste, passando mais ao norte do país por vários pueblos medievais…

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Saint-Jean-Pied-de-Port: início do caminho

Início da Rota de Napoleão

Dicas da Cabrita: Quantos dias você gastou e por quais cidades passou?

Fernando Resende: Acho que gastei uns 17 dias pra percorrer todo o Caminho, de Saint-Jean até Finisterre, 90 km depois de Santiago de Compostela. Foram muitas cidades e pueblos. Aliás, quanto menor o pueblo mais prazerosa a estadia. Das cidades mais conhecidas lembro que passei por Pamplona, Burgos, León… Dos pueblos, destaque pra Rabanal del Camino, um pueblo bem medieval, com a maioria das casas construídas de pedra! Existem vários sites com guias online que te adjudam a conhecer mais sobre o Caminho e a definir os pontos de pernoite e os lugares nos quais vale mais a pena passar um tempo maior. Esse foi um dos sites que me ajudaram nessa parte. No meu blog tem várias informações com links para outros sites.

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Dicas da Cabrita: Onde se hospedou?

Fernando Resende: A ideia era entrar no espírito do Caminho, um espírito de desapego, de reflexão, de confraternização… Então decidi fazer uso da rede pública de albergues que o Caminho oferece. Existem vários albergues que hospedam os peregrinos gratuitamente e vivem de donativos, em média 3, 4 euros. Outros cobram uma taxa simbólica, em torno de 5 euros. Nem sempre dá pra conseguir vaga nos albergues públicos A opção fica por conta dos albergues privados que podem variar de 9 a 15 euros. Os albergues públicos são bem simples e oferecem o essencial: uma cama, banheiro, às vezes cozinha, só pra passar a noite mesmo. Alguns são um grande alojamento com centenas de camas, outros menores, com quartos… Varia muito. Não tem café da manhã. Já os privados podem oferecer café e até lavanderia.

Dicas da Cabrita: Teve imprevistos?

Fernando Resende: Se tive! Logo no segundo dia da viagem o câmbio traseiro da minha bike quebrou. Na verdade ele praticamente explodiu!!! Peguei um trecho com muita lama. E era aquela lama tipo argila que gruda pra tudo que é lado. Fui imprudente, insisti na pedalada mesmo sem tirar todo o barro grudado nas rodas e acabei por ficar sem câmbio. Esse foi, sem dúvida, o pior dia de todos. Fique mal, pensei que minha viagem tinha acabado ali, ainda no segundo dia. Foi muito frustrante. Confesso, nesse dia chorei muito. Me senti muito só e na pior! Mas ali comecei a entender o que o Caminho realmente era. Não é só um caminho físico, é muito mais. É um caminho de crescimento, de aprendizado, de provações!!!

Dicas da Cabrita: Como resolveu o problema na bike?

Fernando Resende: Tive que percorrer alguns quilômetros empurrando a bike como se fosse um patinete. Um pé do pedal e o outro impulsionando. Sorte que esse pedaço era reta e descida!!! Fui assim até chegar na próxima cidade, Puente La Reina. No dia seguinte, consegui uma boa alma que ligou para um táxi, que me levou até Estella, onde existia uma oficina de bikes. Lá o Miguel (santo Miguel) trocou o câmbio pra mim e conseguiu desempenar o suporte do câmbio, que eu achei que não ia ter jeito. Com o espírito renovado e com aquela sensação de que éramos (eu e La Poderosa) ‘imparáveis’, conseguimos seguir caminho no dia seguinte.

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Dicas da Cabrita: Você encontrou outros peregrinos durante a viagem?

Fernando Resende: Ainda no começo do Caminho eu conheci um grupo de 3 venezuelanos, 1 colombiana e um dinamarquês. Pedalamos juntos o dia inteiro e acabamos nos separando quando minha bike quebrou. Combinamos de nos encontrar na próxima cidade, mas nos desencontramos. Dias seguintes fiquei sempre com a expectativa de nos encontrarmos pelo Caminho mas nunca mais nos vimos. Quando cheguei em Santiago, minutos depois de parar minha bike na praça da Catedral, ouvi alguém gritando meu nome. Custei a reconhecer, era um casal que estava nesse grupo de ciclistas. Eles já tinham chegado a Santiago e estavam de partida. O encontro foi muito emocionante. Foi uma coincidência muito grande a gente se reencontrar ali, e muito simbólico também.

Dicas da Cabrita: Quais são os pontos turísticos mais legais, de parada obrigatória e você tem alguma dica para o turista?

Fernando Resende:  Um lugar muito legal é a Fonte de Vinho das Bodegas Irache. É uma fonte perto da cidade de Estella que fica do lado de fora das Bodegas Irache onde o peregrino pode servir-se de vinho e água sem pagar nada. É bem interessante. E vinho é bom!

Fonte de Vinho - Bodegas Irache
Fonte de Vinho – Bodegas Irache

Outro lugar bem interessante é a Cruz de Hierro que fica logo após Rabanal del Camino. Existe uma tradição de os peregrinos levarem uma pedra desde suas cidades de origem e carregá-la pelo Caminho até essa cruz, onde as pedras são deixadas. Dá pra imaginar o tanto de pedra lá, né? Além disso, as pessoas costumam deixar tudo quanto é tipo de coisa por lá, pra marcar sua passagem. São bandeiras dos países de origem, fotos, preces… Tem de tudo, até calcinha é possível encontrar por lá!

Cruz de Hierro
Cruz de Hierro

Destaque também pra Finisterre, uma cidadezinha que fica no extremo oeste da Espanha, e no extremo oeste da Europa. Por isso mesmo o nome Finisterre que significa “o fim da Terra”. Tradicionalmente as pessoas terminavam o Caminho lá, no Farol do Cabo de Finisterre, onde, segundo a tradição, os peregrinos realizavam um rito de purificação se despindo das roupas usadas durante a peregrinação e queimando-as. Em seguida se banhavam no mar. Era um rito de purificação e renascimento. Bem interessante. Com o tempo, muitos deixaram de seguir o Caminho até lá, terminando em Santiago. Mas vale muito a pena seguir até lá. A vista do farol é incrível e a sensação é indescritível.

Farol do Cabo de Finisterre
Farol do Cabo de Finisterre

Além disso, existem vários outros pontos interessantes. Na verdade é tudo muito legal! A cada pueblo, a cada cidade, uma surpresa, uma paisagem incrível, uma construção secular… Enfim, cada pedacinho do Caminho é especial.

Dicas da Cabrita: Você recomenda esta viagem?

Fernando Resende: Recomendo, e muito!!! Foi uma das experiências mais intensas e enriquecedoras da minha vida. E recomendo pra qualquer tipo de pessoa. É uma viagem física e espiritual transformadora. Pra quem gosta de aventura, pra quem gosta de novas culturas, pra quem está em busca de uma experiência de autoconhecimento… Ah! E idade não é problema também. Vi muitas pessoas (mas muitas mesmo) da terceira idade percorrendo o Caminho a pé, no seu ritmo, e com um sorriso imenso no rosto.

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Catedral de Santiago de Compostela 02
Catedral de Santiago de Compostela

OBS: O Fernando já fez outras viagens de bike. Se você quiser ler mais acesse o blog dele Diários de Bicicleta. 😀