Morando na Argentina – Da Série: Vou embora do Brasil (parte I)

(Se você procura dicas turísticas sobre a Argentina clique em Buenos Aires e Perito Moreno)

A série “Vou embora do Brasil” já mostrou relatos de pessoas que vivem no Chile, Espanha e Inglaterra. Hoje vamos falar sobre a Argentina com relatos dos irmãos Bruno Mateus de Vasconcelos e Maíra Vasconcelos!

Em 2007, o jornalista Bruno Mateus de Vasconcelos vendeu seu fusca que vivia na oficina e embarcou para a Argentina sem conhecer ninguém, sem falar espanhol e com uma passagem só de ida. Ele fez curso de espanhol na UBA (Universidad de Buenos Aires) e durante um ano e três meses morou em uma residência chamada Domus, em Santo Telmo. “Um dos bairros mais antigos de Buenos Aires, se não for o mais. Boêmio e decadente, tem um cinza especial. A decisão por Buenos Aires se deu por um conjunto de coisas: mais perto do que Barcelona, mais barato. Eu queria aprender de verdade espanhol, não embromar apenas. E, no fundo, eu ainda não sabia, mas eu amava Buenos Aires. Era meu destino”, afirmou.

Featured image
Feira de San Telmo

Desde o primeiro dia Bruno se sentiu em casa. “Viver em Buenos Aires foi uma experiência maravilhosa. De longe, pude conhecer mais o Brasil e os brasileiros, perceber coisas que só é possível quando se está longe, quando sua perspectiva é outra. É preciso olhar para o nosso país e para o nosso povo de uma maneira crítica, não só apontar todas as maravilhas que temos. Isso eu aprendi muito quando morei lá”, contou.

Trabalho

O trabalho do Bruno não era nada pedante, muitíssimo pelo contrário! Ele trabalhava na recepção de um hostel no turno da noite (de 23h às 7h, de domingo a quinta, com folgas sexta e sábado). Conheceu pessoas do mundo inteiro e fez amizades que duram até hoje. Como trabalhava a noite e tinha folgas sobrava tempo livre para cuidar de suas coisas, fazer cursos, conhecer a cidade e desfrutar dos parques. (êeeee vidãoooo!) 😀

Featured image
Com amigos na Argentina
Featured image
Viajando pela América do Sul

Comida

O cardápio não é muito variado. Come-se, basicamente, carne, massa e salada. E muita batata! Bruno cozinhava todos os dias e aprendeu a passar tempos sem comer feijão. “A famosa carne argentina é realmente deliciosa, as famosas empanadas também, o pancho é gostoso para um lanche na rua de bobeira. Gostava muito de ir nas panaderias (padarias) e confeterias (confeitarias) para comprar churros, medialunas e outros doces. Acostumei a tomar mate, bebida típica que eles são viciados, e tomava todos os dias, várias vezes ao dia. Por falar em doce, tem também os famosos alfajores e o doce de leite, que é muuuuito bom…”, disse. (cabrita concorda!)

Featured image
Prédios em Buenos Aires com suas sacadas floridas

Diferenças

“O brasileiro, de alguma forma, sempre acha que a vida vai melhorar; o argentino, muito pelo contrário, acha que vai tudo piorar. Somos otimistas por natureza, o argentino não. Isso pra mim ficou muito marcante. Os argentinos têm mais consciência histórica, de país, de nação… Eles entendem porquê devem ir às ruas. O brasileiro ainda não entendeu muito bem sua identidade. Acho lindo quando eles saem às ruas para lembrar o golpe militar na Argentina. É um dia lindo, é feriado, todos vão para as ruas com seus filhos no colo. Eles sabem porquê e por quem estão brigando. Essa noção histórico-política deles me chamou demais a atenção e é uma das grandes diferenças que vi. No dia a dia, os portenhos podem ser mal-humorados e grosseiros. Sei lá, pode ser pelo fato da correria do cotidiano, a pressa da cidade grande… Mas a maioria não é assim, pelo menos para mim”, ponderou Bruno.

Featured image
Maíra, Bruno e Daniela – os 3 irmãos já moraram em Buenos Aires

Hermanos

Cerca de 4 meses antes de Bruno retornar ao Brasil sua irmã, Maíra Vasconcelos, também jornalista, foi passar um tempo na capital portenha. Bruno voltou e Maíra já está completando 6 anos em solo argentino. Ela conta que decidiu se mudar por impulso e por estar insatisfeita com a falta de independência financeira conferida pela profissão. A adaptação foi tamanha que ela nem reparou no passar dos anos. “Não tenho vontade de voltar (para o Brasil), mas também nunca havia pensado que um dia chegaria a hora de ir embora, porque nunca havia planejado viver aqui de vez. Esquece-se do tempo”, refletiu.

As panaderias (padarias) e confeterias (confeitarias) citadas por Bruno também são destacadas pela hermana. Maíra considera Buenos Aires uma cidade menos desigual se comparada a Belo Horizonte. Lá a violência é menor do que aqui. É possível pegar ônibus de madrugada, ir e vir sem problemas, nas zonas cêntricas da capital. Conseguir emprego com carteira assinada já é mais difícil.

Maíra define a Argentina como um “país que busca constantemente a consciência e o conhecimento de seus processos históricos-sociais-políticos, sendo questionador crítico de si mesmo, portanto, um país complicado e imprevisível”.

Em Buenos Aires, Maíra atua como jornalista independente, escreve crônicas para o Jornal GGN e é autora do Jornaliskra. Ela cobriu o golpe de Estado no Paraguai em 2012 e acabou de retornar do Uruguai onde fez a cobertura da eleição 2014 (leia mais aqui). Algumas anotações desta última viagem vão fazer parte da novela O Diário de Barbará que a jornalista está escrevendo (e nós estamos aguardando com muita ansiedade)! 😉

Featured image
Maíra mora no bairro Monserrat

No post de amanhã veremos o relato da Rebecca Ferrari, que fez mestrado em Buenos Aires, praticou um esporte muito bizarro e viajou bastante pela Argentina. 😀