Morando na Argentina – Da série: Vou embora do Brasil (parte II)

Ontem falamos sobre a experiência dos irmãos Bruno e Maíra Vasconcelos de morar em Buenos Aires (leia aqui). Hoje o depoimento é da Rebecca Ferrari que resolveu fazer mestrado na Argentina e de quebra praticou carrovelismo e viajou por toda a Argentina.

Por Rebecca Ferrari:

“Sou uma daquelas pessoas que acredita que passar 10 anos numa escola para aprender um idioma é uma coisa que não funciona. Na minha opinião, a gente aprende um idioma morando no país onde a língua é falada, mesmo que apenas por um mês, e aí dá para aprender também os costumes e a cultura das pessoas.

Antes de morar na Argentina, já tinha morado nos EUA por 2 anos, aprimorando meu inglês. Era a hora de aprender o espanhol e apesar de ter muita curiosidade com a Europa, optei por um país da América do Sul porque estaria mais perto da família, há apenas umas 3-4 horas de distância de casa. Decidi então associar o aprendizado do espanhol com um mestrado na minha área. Pesquisei vários cursos na América Latina e América do Sul e o que mais me interessou, um mestrado em Marketing Internacional, estava disponível na Universidad Nacional de La Plata, que fica a 30 minutos do Distrito Federal e capital da província (ou estado) de Buenos Aires.

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Puerto Madero – Buenos Aires

O curso demorou dois anos com intervalos de férias de inverno (15 dias) e verão (3 meses). O mestrado lá foi muito mais barato do que aqui no Brasil, devido ao câmbio do real x peso. Eu consegui alugar um apartamento sem muitas burocracias, só pelo fato de ser brasileira, pois eles consideram o país estável e confiam que teremos condições para sustentarmos um aluguel.

Sobre a escola, é diferente estudar na Argentina porque existe uma certa formalidade entre professores e alunos, existe um respeito muito maior pela instituição de ensino lá do que aqui no Brasil. Não chamamos o professor de “tu” ou de “vos” (como dizem os argentinos), e sim de “usted”, que é um jeito mais respeitoso para referir-se a uma pessoa que está em um certo nível acima de você – no caso, o professor que está “acima” do aluno. O meu portunhol não teve desconto: tive que chegar falando o que sabia e em um mês já estava bem avançado porque convivia intensamente com hispano-parlantes argentinos e de outros países, e também porque tinha prova semanalmente em espanhol – sem moleza pelo fato de eu falar português.

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Perito Moreno, Patagônia Argentina

Além da minha universidade, a UNLP, uma das melhores do país, vale a pena conhecer a Universidad de Palermo, mais voltada para artes e design, a própria Universidad de Buenos Aires, ou a Universidad Austral, como foco em cursos de gestão – instituições de ensino muito conceituadas para quem quer fazer especializações ou outros cursos legais de curta duração na Argentina. O país é reconhecido por seus cursos em estética, moda e psiquiatria.

Falando um pouco sobre as pessoas, no começo tive muita dificuldade em fazer amizade com os argentinos. Eles são mais reservados, não se misturam muito. Meus amigos eram da Colômbia, Venezuela, Equador, Itália. Se você quer morar na Argentina, tenha paciência: eles demoram a criar uma certa intimidade. Mas quando dão abertura para aproximação, viram seus melhores amigos, extremamente companheiros e acolhedores. Atenção porque aqui estou falando do bonaerense, o argentino da província de Buenos Aires. Argentinos de outros estados do sul e do norte são mais abertos e mais amistosos logo de cara.

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Pampa El Leoncito, em San Juan (norte). Rebecca praticando carrovelismo, carro à vela, levado pelo vento

A comida pode ser um problema, depois de um tempo a gente cansa de comer carne, batata e macarrão. É bom levar do Brasil um estoque de farinha, feijão, pimenta… coisas da terra acalentam o coração e o estômago. Com o tempo começam a surgir convites para os “asados” (o churrasco argentino), sempre servidos com um bom vinho. E claro, surgem os convites para provar comidas de diversos lugares do país de origem de muitos estudantes – é uma explosão de conhecimento e sabores quando se vive lá.

Inclusive, tive a oportunidade de viajar de norte a sul, desde Ushuaia, na Patagônia, até La Quiaca, na Bolívia. A Argentina é um país maravilhoso, com muita cultura, culinária diversificada, vinhos incríveis, gente diferente, bastante história e paisagens espetaculares. São geleiras ao sul, desertos no norte! Vale a pena reservar um tempo para percorrer o país antes de voltar ao Brasil.”

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Tren a las Nubes, em Salta, no norte da Argentina. Um dia de viagem chegando à 4880 metros
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Valle de la Luna, San Juan
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Valle de la Luna, San Juan
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Carrovelismo

 

Os 3 depoimentos me deixaram com muita vontade de viver na Argentina… Cabrita quer!!!!

E você, já viveu fora? Mande seu relato para a série “Vou embora do Brasil”. 😀