Sobre terremotos, tsunamis e cerejeiras

Era madrugada de 11 de março de 2011. Às 2h55 o telefone tocou. Levantei mas não cheguei a tempo de atender. Era uma chamada internacional. Alguns minutos depois tocou novamente. Dessa vez, era minha irmã.

“-Olá! Como estás?”

“-Estou bem e você?”

“-Também. O que você está fazendo?”

“-Dormindo. Alguém morreu?”

“- Não. Tô ligando para falar o contrário. Nosso irmão ligou, teve um terremoto muito forte no Japão mas ele passa bem.”

Desligamos o telefone e meu irmão ligou novamente. No momento do terremoto, às 14h46 no horário local, ele saía de uma estação de trem. Foi preciso segurar-se nas grades da estação durante o tremor de magnitude 8,9 graus. Falamos um pouco, ele estava apressado, seguindo para um pátio em busca de proteção. Muitos prédios em Tóquio estavam em chamas. De repente, perdemos contato e o único barulho que vinha do outro lado da linha era o de um enorme chiado.

terremoto tóquio
Incêndios foram registrados em edifícios de Tóquio após o terremoto de 2011
terremoto tóquio 1
Prédio em chamas

Busquei notícias na internet. Dei de cara com um “Alerta de tsunami!”. Enquanto eu pesquisava, uma onda viajava a 800 km/h do epicentro do terremoto rumo ao nordeste do Japão. Eu não tinha informações sobre as áreas que seriam atingidas pelo tsunami e fiquei estática o resto da madrugada olhando para a televisão, assistindo ao vivo as primeiras cenas de uma onda de 40 metros de altura tragando o litoral japonês. Era um canal desconhecido da tv à cabo de idioma oriental. Eu não entendia nada, só sabia que uma onda enorme avançava sobre o continente. Meu irmão entrou em contato só no outro dia. Passava bem. Por outro lado, infelizmente, 18 mil vidas foram perdidas.

Pisei em solo japonês no dia  21 de março de 2013. Praticamente 2 anos após o tsunami mortal. Viajamos por algumas cidades do interior e as cenas da onda gigante avançando sobre as casinhas voltava à memória em alguns momentos (mesmo eu não tendo passado pelas cidades atingidas). É que as imagens feitas durante a tragédia chamaram muito minha atenção. Durante dias assisti a todos os videos que surgiram na internet. Ontem, exatamente 4 anos após o episódio, tive a oportunidade de assistir ao documentário The Tsunami and the Cherry Blossom. A cada ano, ele fica disponível ao público, sempre nos dias 11 de março. Mostra depoimentos de sobreviventes e imagens das cerejeiras em meio a tragédia. Só agora percebi que as sakuras, tão singelas, desabrocharam naquele cenário devastador levando esperança aos sobreviventes.

cherryblossom2

A flor símbolo do Japão fica florida durante uma mísera semana, reflete, pois, a fragilidade da vida. As cerejeiras são efêmeras como os tsunamis e os terremotos. Ambos vêm e vão muito rapidamente. A grande tristeza é que a ocorrência de catástrofes nos locais próximos as zonas de subducção, como é o caso do Japão, é tão certa quanto o florescimento das cerejeiras. Não têm a mesma regularidade mas sempre ocorrerão. Essa semana mesmo, cientistas alertaram para risco de novo tremor como o de 4 anos atrás devido a mudanças no movimento das placas tectônicas.

O que sabemos com certeza para este ano é que as cerejeiras vão desabrochar em Tóquio no dia 24 de março e em Nagoya no dia 29 (veja aqui). Infelizmente, não temos tamanha previsão quando o assunto é tectonismo. Fica a eterna dúvida de quando será o próximo grande terremoto do Japão.

cerejeira
Representam a fragilidade da vida