Morando na Rússia – Da série: Vou embora do Brasil

Continuando a série Vou Embora do Brasil, hoje falaremos sobre a terra da vodka: Rússia!!! E quem conta essa aventura pra gente é a Marina Sá, que largou tudo no Brasil para viver em Moscou depois de uma cirurgia bariátrica.

Por Marina Sá

O motivo pelo qual fui parar em Moscou é uma história inusitada, diferente, no mínimo intrigante e, ao mesmo tempo, um momento de insanidade. Há mais ou menos 1 ano e meio, eu me relacionava com uma pessoa muito interessante, um bom homem, de caráter invejável, calmo, tranquilo, com quem dividi muitos bons momentos e fui feliz durante um bom tempo. Ficamos noivos e resolvemos que gostaríamos de compartilhar a vida juntos. Durante o nosso noivado eu decidi fazer uma cirurgia de redução de estômago – estava pesando 120 quilos e durante toda a minha vida passei pelo processo emagrecer-engordar. Fiz a operação, emagreci 51 quilos e enfrentei uma mudança drástica de vida. Passei momentos duros para me alimentar, sonhava com comidas que corriam atrás de mim, me deprimia e ficava feliz ao mesmo tempo. Durante esse processo minha relação com o ex-noivo foi se modificando e eu resolvi que não era o momento de me casar, que eu precisava viver outras coisas antes.

Eu tinha uma amiga, a Priscila Pampolini, que tinha feito a mesma cirurgia que eu e acompanhou esse meu processo pós operatório. Depois de uns 3 meses de operada, fui me encontrar com ela – nessa época eu já tinha perdido cerca de uns 15 quilos, o que fazia uma diferença gritante no meu corpo e no que eu via no espelho. Ela estava com uma amiga que se chamava Juliana. Fomos apresentadas, conversamos, e eu contei um pouco do meu dilema que tinha acabado de operar, que estava noiva mas não sabia mais se queria me casar. Ela me disse, “você tem que terminar para ficar sozinha, para viver a sua vida, não tem que terminar por nenhum outro motivo”.

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Aquela frase passou uns 4 meses martelando na minha cabeça. Nesse mesmo dia, eu e Juliana continuamos a nossa conversa, e ela me contou que iria viver em Moscou por um tempo e eu rapidamente me recordei de um amigo russo que havia feito no Brasil recentemente, o Pavel, que morou por 3 meses no meu apartamento que eu moraria após o casamento. Ele me contava da vida dele na Rússia, como eram os russos, como era Moscou, o que ele fazia, e como fazia frio. Passado o tempo, logo após eu ter decidido terminar a minha relação, liguei pra Ju, e falei: ” Oi Juliana, lembra de mim? Queria te contar que terminei a minha relação e lhe agradecer pelas palavras que você me disse naquele dia, elas foram muito úteis para que eu pudesse perceber que precisava realmente viver sozinha”. Ela, mais que depressa, me convidou para sair, já que, nesse momento, eu era a mais nova solteira do pedaço. Eu aceitei, saímos, bebemos, dançamos, me diverti como não me divertia há muito tempo. Depois disso passamos a sair sempre, viramos, como dizem por aí, unha e carne, onde uma ia, a outra ia também, e nos encontrávamos religiosamente todos os dias.

Um dia, estávamos no famoso Rei do Pastel, na Savassi, e eu falando com ela como ia ser ruim porque, em breve ela iria para a Rússia. Ela perguntou: “Vamos comigo?”. Confesso que não pensei duas vezes e rapidamente respondi “Vamos. Eu vou fazer uma loucura na vida!”. Eu sempre amei o meu trabalho, mas também sentia que era hora de mudar os rumos da minha história. Conversei com meus pais, que a princípio me acharam maluca, decidi em uma semana que queria ir morar na Rússia, vendi meu carro, meu pai me apoiou financeiramente com o que pode, e eu, finalmente, comecei a me programar para partir para Moscou em 3 meses.

O idioma

Atualmente falo um pouco de russo, o suficiente para me comunicar, expressar algumas ideias, ser entendida, mas é um idioma muito difícil, muito, muito mesmo! Nunca tinha ouvido falar no idioma antes. A Juliana me ensinou algumas coisas no Brasil, porque ela já estudava, mas eu não sabia quase nada. Eu falo um pouco de inglês, que dá pra me virar, e entendo bem o espanhol, e até arrisco me comunicar. Lá tive uma amiga da minha sala que falava espanhol que me ensinou muitas coisas, e também convivia com muitas pessoas da América Latina, então ajudou muito.

Os russos

A princípio, foi um choque, um choque mesmo, de ficar de cabelos em pé, porque achei que eles eram muito sem educação. Atualmente eu sei que não é isso. É o jeito deles. Eles são práticos e objetivos e isso, muitas vezes, é confundido com falta de educação. Posso dizer que os russos, quando são seus amigos, são pessoas fiéis. É um paradoxo porque às vezes os russos podem ser muito amáveis, mas às vezes são muito mal humorados. Eu acho engraçado, por exemplo, que é uma tradição aqui, se você estiver comendo alguma coisa nunca vai ficar sem ouvir um “bom apetite”, acho uma tradição muito educada, mas se você demora muito para escolher alguma coisa, em uma loja, ou em um restaurante, eles não têm muita paciência.

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No inverno é pior e no verão ficam felizes e mais pacientes. Eu acredito que o clima, que durante um bom tempo é gelado – gelo mesmo – modifica o humor das pessoas, eu mesma adquiri algumas características da cultura russa no inverno. Uma coisa que achei muito interessante, é que quando você fala para um russo que está cansada eles nunca vão te perguntar por que, o que você fez que está cansada, pois aqui você não precisa fazer nada para estar cansada, somente de viver no inverno brusco e lidar com a questão da temperatura lhe dá um cansaço físico indescritível, isso é impressionante. Penso que nosso organismo tem que acelerar mais o metabolismo para se manter quente, daí o cansaço. Na cultura de beber vodka e não ficar bêbado como nós, eles são ninjas! A história de que você nunca entra em casa de sapatos, na casa de ninguém, que você nunca dá flores em número par, pois significa morte, a história de que o ano novo é como o nosso Natal. Tem muita coisa bacana pra descobrir.

Pontos turísticos

Em Moscou é obrigatório visitar a Praça Vermelha. É o lugar mais lindo que já visitei na vida! E, com toda certeza, as estações de metrô e o Gorky Parque, pra mim são os lugares que mais amava lá. Pelo que percebi a arquitetura e os lugares ao ar livre são os atrativos principais, mas as baladas e boates também agradam muito. As russas são mulheres muito bonitas, e os brasileiros enlouquecem mesmo. E os russo também são, e a mulherada pira…. RS

Melhor época para visitar

Na minha opinião, a melhor época para visitar Moscou é no inverno, porque amo frio, mas para brasileiros é melhor ir no verão, em meados de julho que o clima já é mais quente, porque o frio é realmente muito forte! RS RS RS RS O meio de transporte mais usado é o metrô, é complicado porque não tinha placas em outro idioma, somente em russo mesmo, com alfabeto cirílico, mas quando eu voltei, em julho de 2014, eles estavam com projeto de colocar placas em inglês. É difícil andar, mas o serviço é excelente, barato, rápido, e as estações são maravilhosas! Simplesmente magnífico!

Experiência

Foi maravilhoso, faria tudo outra vez e tenho vontade de retornar para passear. Não sei se moraria novamente, foram tempos bons, mas vivi coisas difíceis também, e a minha qualidade de vida aqui é bem melhor. Para turismo, recomendo para qualquer tipo de pessoa que esteja disposta a se surpreender com uma cultura tão diferente da nossa, mas que vem para agregar e nos ensinar coisas muito importantes. Perguntada sobre se tivesse um filho, quais características ensinaria/gostaria que ele tivesse do jeito russo de ser eu respondi: com toda certeza, a objetividade. Se tem uma característica interessante nesse povo e que eu admiro muito é a capacidade deles em dizer com objetividade e às vezes com uma franqueza que até machuca, se querem ou não querem, se gostam ou não gostam, e falam sem medo de dizer, porque sabem que serão compreendidos, e mesmo se não forem, vão agir assim. Viver na Rússia foi pra mim viver, a cada dia, uma história e uma situação diferente para dividir. Foi onde tudo aconteceu, de repente eu estava de um jeito, e de repente estava de outro, completamente diferente. Eu não sei se foi uma experiência minha, ou algo que somente eu sinto, mas por ter vivido em uma região onde vivem não sei quantos mil estrangeiros, eu sentia que as energias muitas vezes se misturavam muito e coisas estranhas aconteciam. Não consigo explicar, mas aconteciam, e as pessoas passam por momentos duros, e às vezes por momentos leves, depende pra que lado a energia está soprando.

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