Criando os filhos fora da escola #homeschooling #unschooling

Saiba o que pensam as mais de 2.500 famílias do Brasil que não matriculam seus filhos na escola formal

Há mais de dez anos conheci a Lis Oliveira. Moramos no mesmo prédio na avenida Afonso Pena, em Belo Horizonte. Ela cursava Turismo e eu, Jornalismo. Lis era moderna, já tinha morado até na Finlândia! Muitos anos se passaram e continuamos nos acompanhando por redes sociais. Vi quando nasceu seu primeiro filho, Thor (6 anos). Depois veio a Thrud (2 anos) e, mais recentemente, o Tarik (4 meses). “Deus do céu, a Lis não vai parar de parir?”, eu pensava.

O que achei mais curioso é que, além de ser mãe de três crianças, ela mesma se encarrega da educação delas. Lis faz parte de uma das 2.500 famílias adeptas do Homeschooling/Unschooling no Brasil. Achei legal, mas também achei estranho e vi que eu precisava de mais informações. Pedi a ela que escrevesse para mim sobre o assunto me contando como funcionava. O resultado foi tão bacana que publico aqui o artigo escrito pela Smart Mãe recheado de informações para quem quiser conhecer mais sobre a prática. O mais bacana de tudo é a preocupação e o cuidado com a educação dos filhos, o que muitas pessoas colocam apenas na conta da escola.

Autora: Lis Oliveira

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Foto: Arquivo Pessoal

Qual o papel da escola nas nossas vidas? Sem pensar duas vezes, é provável que a maioria de nós responda a esta pergunta considerando “a importância de estudar para se tornar alguém na vida, para conseguir um bom trabalho”. Mas o que é um bom trabalho? Um trabalhador do campo, um marceneiro ou uma faxineira não são “alguém na vida”? Então, o seu cargo em uma empresa define a sua pessoa? Um alto salário traz segurança e alegria? A que preço? Quanto tempo por semana um empresário atarefado passa com sua família? É sabido que nunca consumimos tanto quanto nos dias de hoje e também que nunca fomos tão tristes, tão insatisfeitos.

Confundimos instrução escolar com aprendizagem; ensino, obtenção de graus, com educação; diploma com competência; fluência no falar com capacidade de dizer algo novo. É como achar que cuidar da saúde é igual a tomar remédios.
Mais de 2.500 famílias no Brasil optam por manter os seus filhos longe das escolas, assumindo 100% da responsabilidade na sua educação. O Homeschooling, ou ensino domiciliar, é regulamentado em mais de 60 países no mundo e tem atraído um crescente número de adeptos a cada ano. Como isso funciona? A criança não fica prejudicada? Como é possível que ela aprenda sem a instrução de profissionais qualificados? “Ah, mas que absurdo! Isso não é o mesmo que manter o jovem em uma bolha?”
Bem, vamos por partes – é necessário refletir sobre alguns conceitos básicos. Acontece que, pelo que os estudos indicam, a escola é a bolha…
1) O que é Educação?
É a forma de passar para o humano o que é ser humano, de mostrar e representar a essência da humanidade para que a pessoa se identifique, entenda a si mesma e o seu papel no todo. Educação é política, atuação na sociedade.
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Thor construindo seu robô na aula de inglês em casa. Foto: Arquivo Pessoal

Existe um consenso entre pesquisadores de diversas áreas e de muitas nacionalidades e culturas de que as coisas mais importantes da vida nós aprendemos no nosso dia-a-dia, com a nossa família e amigos, em momentos de lazer, no trabalho, com a comunidade, com participação social (denominada TEIA EDUCACIONAL por Ivan Illich, 1926-2002, austríaco, filósofo). O aprendizado ocorre quando se faz uma indagação e uma investigação que vai conduzir a conclusões sobre um determinado assunto. Basicamente, a necessidade leva ao aprendizado. A aprendizagem está centrada na relação, portanto o poder hierárquico atrapalha a relação de conhecimento – este o abismo entre professor e aluno, pois o professor quando ensina é o foco da atenção.

Na verdade, o ensino não existe, porque ninguém ensina o que o outro, de algum modo, não esteja pronto para saber. A gente só aprende o que nos toca afetivamente, humanamente. E o que se ensina, o conhecimento, não é estático – novas tecnologias levam a novas pesquisas e a novas constatações todos os dias, por isso o professor não sabe mais do que o aluno o tempo todo. Hoje, ambos estão aprendendo juntos, simultaneamente. O “poder”, o imprescindível é deter o interesse por tudo, a curiosidade, não o conhecimento. Porque o saber é provisório.
“Quem acumula o conteúdo não pensa. Pensar exige o vazio. Eu só aprendo quando não sei.” Viviane Mosé, filósofa.

2) O que é a escola?

A escola tal qual a conhecemos nasceu com a industrialização. Da necessidade de um local para os trabalhadores deixarem seus filhos durante sua jornada e também da necessidade de capacitar operários para as indústrias. A escola foi concebida de fato como uma linha de montagem, onde recebemos o conhecimento fragmentado (Literatura; História; Geografia; Matemática; Química etc.) e ficamos com uma falta de noção do todo. Não compreendemos nossa parte no conjunto que é a sociedade, perdemos a noção de participação e relacionamento, o nosso senso crítico. A escola vem ainda portanto satisfazer a necessidade dos líderes de uma massa passiva, desvinculada do seu processo de vida, alienada.

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Foto: Arquivo Pessoal

Com o conhecimento fragmentado, não sabemos lidar com problemas globais, somos incapazes de enxergar de que forma tudo está relacionado. Ora, se o que temos na escola não é educação, se a aprendizagem acontece a qualquer momento e muito raramente durante a aula, se o ensino não existe e o saber é provisório, pra que a escola? Declarou Miguel Nicolelis, neurocientista e único brasileiro que foi capa da revista Science: “O sistema educacional dominante no mundo vende um produto que o cliente não quer receber e não pergunta a opinião do cliente” – o cliente é a criança.

Ouço que o mundo é muito competitivo e não podemos privar nossas crianças disso. “Fala-se muito na luta pela paz, mas não se educa para a paz. Educa-se apenas para a competição e a competição é o ponto de partida de toda guerra”. (Pablo Lipnizky)
Pesquisam demonstram que os melhores alunos de escolas convencionais nos EUA, Canadá e Europa têm desempenho inferior ao de um jovem que aprende em casa. Universidades de renome como Harvard são simpatizantes de estudantes que não frequentaram a escola, uma vez que eles tendem a se destacar em sua autonomia e proatividade, com projetos inovadores. Já há localidades onde o governo remunera as famílias que optam pela desescolarização. Primeiro, porque entenderam que este estudante desenvolverá um potencial diferenciado e, segundo, porque ele não está usufruindo da escola pública (é como um reembolso de impostos).
A própria Harvard já realizou experiências de sucesso com turmas de unschoolers e reservou um espaço especial para eles em suas dependências.

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Thor preparando apresentação sobre a Finlândia para seu grupo de Homeschooling que tem mais de 20 crianças. Foto: Arquivo Pessoal

É importante ressaltar que as famílias que praticam Homeschooling não querem de forma alguma decretar que isso é o ideal para todos. Não é. Elas só desejam deixar claro que não estão agindo de forma displicente com seus filhos e gostariam de promover a divulgação deste modelo para que outras famílias que se encaixam neste perfil saibam que existem alternativas ao modelo educacional vigente que, infelizmente, é um fracasso. A taxa de ingresso às escolas é alta, no entanto a de evasão beira 1/3, ou seja, em algum ponto a escola deixa de fazer sentido na vida do aluno. E não só na vida dele. Da mesma forma que todas as segundas-feiras a maioria dos estudantes não quer ir às aulas, os professores também não o querem. Certa vez ouvi que a taxa de afastamento devido à depressão era algo em torno de 40%. Puxa! Numa empresa onde 1/3 dos alunos vazam e 40% dos professores também, tem algo de muito errado.

Até quando o jovem fica em casa? Até o vestibular. O Enem certifica a conclusão do ensino médio e o estudante ingressa no ensino superior normalmente. No Brasil não está em vigor ainda uma regulamentação, mas já existe um projeto de lei em andamento. O crime seria o de “abandono intelectual”, mas certamente estas famílias que garantem dedicação integral à aprendizagem estão longe disso. Este ano, houve um movimento de mídia quando uma jovem de 16 anos, Lorena Dias, ingressou na faculdade após cinco anos fora da escola.
Pense: Quantas vezes você se perguntou para que todas aquelas fórmulas? Tabela periódica, tantos dados e números? Decoramos tudo, geramos stress no decorar sem entender, para esquecermos tudo após as provas. A forma de avaliação é muito deficiente. A escola não está preparando nem pra vida, nem para o mercado de trabalho. Mesmo porque o próprio mercado tem um futuro desconhecido. Não se sabe quais serão as profissões em alguns anos, mas é claro que a escola tradicional não nos preparará para elas.
Praticando Homeschooling, o papel dos pais e de todos que quiserem se envolver é de tutores, mentores, iluminando o caminho que os então autodidatas irão percorrer. Homeschoolers e Unschoolers focam nas áreas que lhes despertam interesse e se especializam, sem perder todo aquele tempo com o que lhe parece inútil. É como funcionam as células: elas absorvem do meio ambiente o que necessitam para sobreviver e descartam o resto.

DIFERENÇA: Muitos que praticam Homeschooling trazem a escola para a sala de casa, seguem um currículo do governo ou outro tipo. O Unschooling é uma prática mais livre, que parte das iniciativas das crianças.
Neil DeGrasse Tyson, astrofísico e um dos maiores da ciência contemporânea, respondeu para pais que indagaram sobre como incentivar seus filhos a serem cientistas: “Saiam do caminho deles! Crianças são cientistas natas”. De fato, estudos indicam que aos cinco anos 98% das crianças poderiam ser consideradas gênios – 15 anos mais tarde, apenas 10% mantém isso.
“Estudar não é um ato de consumir idéias, mas de criá-las e recriá-las.” – Paulo Freire

Referências:
Documentários: Quando sinto que já sei e La Educacion Prohibida / Pedagogia Ativa; Pedagogia Waldorf; Montessori; Summerhill; Freire; Sudbury; Kilpatrick; Cossettini; Pestalozzi; André Azevedo da Fonseca; Viviane Mosé; Ken Robinson; Ivan Illich.

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