Ensinamentos de uma evangélica aos que usam a religião para oprimir

“Eu espero que, um dia, o amor seja verdadeiramente o que determina as nossas ações”

Com a aprovação do PL 6583-13, que define a família como o núcleo formado a partir da união entre um homem e uma mulher, pela comissão especial do Estatuto da Família, a Câmara dos Deputados esturricou ainda mais sua imagem, que há muito tempo já não é vista com admiração. O retrocesso e a intolerância estão dominando um cenário no qual deveria prevalecer a defesa dos direitos, a tolerância e a compaixão com o próximo. Mas não. Isso não existe para certos políticos. Hoje li no face um texto super bacana da colega jornalista Juliana Siqueira, que me autorizou a reproduzí-lo aqui. Que sirva de lição para quem usa a religião para justificar sua própria intolerância.

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Por Juliana Siqueira

“Sou evangélica desde criança e vivi uma época em que, vez ou outra, eram necessárias algumas injeções de ânimo para que não nos envergonhássemos da nossa fé – naqueles anos, ela ainda era mais intensamente vista como antônimo de inteligência.

As coisas mudaram bastante desde então. Crescemos em números, ganhamos mais espaço, superamos um ou outro estereótipo. Mas tenho me entristecido bastante com o uso que grande parte de nós tem feito dessa voz adquirida.

Amor foi, é e sempre será o que permeia toda a Palavra de Deus – aliás, Ele próprio o é. Isso inclui o acolhimento integral de todos os seres humanos em nossos corações e não somente nos discursos de “eu amo a todos, PORÉM”, já que amor não admite a palavra “porém”. A Bíblia que nós afirmamos crer (mas muitos nem folhearam), o tempo inteiro destaca a importância que cada ser humano tem para o Criador – e que deveria ter para os seus semelhantes.

Parece incrível, mas o que tenho visto é que vários que propagam a religião sequer sabem o que dizem acreditar (é confuso mesmo). Recapitulando, nós cremos que a salvação das nossas almas é pela fé e não pelas obras, por meio da graça (favor IMERECIDO) de Deus e o reconhecimento do sacrifício de Jesus na cruz do calvário. Isso quer dizer que ninguém é bom ou santo o suficiente para conseguir ir para o céu por meio de seus próprios esforços.

Essa crença de como se dá a salvação unida ao mandamento de amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a si mesmo (esse é um conhecimento básico, extremamente básico, da Bíblia) deveria ser razão suficiente, biblicamente falando, para desfazer toda essa discriminação e opressão, por parte de alguns, a determinados grupos. Além disso, ninguém deveria se achar no direito de negar a quem quer que seja algo que foi concedido pelo próprio Deus: o livre-arbítrio. Se a Palavra diz que as coisas não são por força e nem por violência, quem somos nós para acharmos o contrário?

Tenho visto muitas pessoas sendo humilhadas e agredidas – de diferentes formas – por quem usa a Bíblia para justificar suas intolerâncias e preconceitos, sem perceber que suas práticas não se diferenciam, em sua essência, daquelas que elas julgam (não existe “TOP 3” dos pecados). Segundo a Palavra de Deus, somos todos iguais e necessitados das misericórdias divinas.

Eu espero que, um dia, o amor seja verdadeiramente o que determina as nossas ações. Essa, sim, é a vontade do Deus que tanta gente diz crer, amar e seguir. Espero que não invalidemos a morte de Jesus, que não foi por quem era mais bonito, mais inteligente, mais rico ou que se achava mais santo e, sim, por toda a humanidade. A Palavra de Deus é amor e jamais deixará de ser justiça também – mas o meu desejo é que não sejamos prepotentes a ponto de acharmos que nós somos os representantes ou executadores dessa justiça, já que nossos critérios não vêm carregados por todo o amor incondicional e misericórdia que somente Ele tem… Graças a Deus”.