Quem dançou na eleição de Lula

“Mato sem cachorro: um governo que não dá para defender versus uma oposição que não dá para apoiar”

12800190_920600948061572_4839907550131549312_nO dia era 27 de outubro de 2002. Eu tinha acabado de ingressar no curso de jornalismo na Puc-Minas, em Belo Horizonte, e acompanhava a efervescência política que o país vivia. O Brasil enfrentava uma grave crise econômica durante o segundo mandato do então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Mudanças urgentes se faziam necessárias e, naquele momento, o povo rejeitou o tucano José Serra (como sempre) e elegeu o petista Luís Inácio da Silva para assumir o Executivo nacional.

Naquele momento, o Brasil precisava de uma ruptura do modelo vigente e a população comemorou muito. Eu mesma dancei na av. Afonso Pena com milhares de pessoas com bandeiras do Brasil. Foi a maior festa. Havia muita esperança no povo. Até hoje me lembro das músicas de “Lula lá, Nilmário aqui” (vale lembrar que quem levou o governo de Minas foi Aécio Neves, neste mesmo dia). Até hoje, um adesivo da campanha de Lula está colado na janela do meu antigo apartamento, no terceiro andar de um prédio na esquina entre Afonso Pena e rua Guajajaras, no centro.

Na minha opinião, Lula fez um bom primeiro mandato. O segundo, foi médio e ele já havia perdido apoiadores em vários setores. Depois, ele elegeu Dilma contra o insistente José Serra. A antiga ministra chefe da Casa Civil teve um primeiro mandato fraco e descambou geral no atual. Nos últimos anos, vimos se intensificar a crise política e econômica, com recessão, queda na indústria, desemprego, denúncias de corrupção, dólar alto, juros crescentes, instabilidade etc. Resultado: brasileiro sufocado, revoltado, indignado.

No caso do impeachment da presidente, os poderes Executivo e Legislativo ficarão nas mãos de Michel Temer (PMDB), Eduardo Cunha (PMDB) e Renan Calheiros (PMDB), ambos de reputação não ilibada. Diante deste cenário monstruosamente obscuro, reproduzo a frase que li hoje nas redes sociais: “Mato sem cachorro: um governo que não dá para defender versus uma oposição que não dá para apoiar”.

Ontem passei pela praça da Liberdade, voltando do trabalho, e vi de perto a manifestação contra os petistas em função do anúncio de que Lula assumiria o ministério. Após a manifestação de domingo, que reuniu milhares de pessoas em todo o Brasil, a atitude soou como afronta. Até eu tive vontade de ligar pra Dilma e dizer: “miga, sua louca. Onde cê tá com a cabeça???”. Voltando à manifestação, fiquei bem chocada. Não tive como não me lembrar daquele dia em que dancei na Afonso Pena. As pessoas também carregavam bandeiras do Brasil, porém, na quarta-feira, os rostos não transmitiam esperança, mas revolta e urgência por mudanças.

Definitivamente não sei o que pensar. Não acho que Lula é o maior vilão do Brasil e acredito que muitos outros políticos que ocupam cargos nobres mereciam muito mais do que ele ter seus bonequinhos vestidos de presidiários chutados por aí. Resta-me esperar que a justiça faça a parte dela.

Buscando melhorar o sistema político, acredito que seja fundamental valorizar o princípio republicano da temporariedade dos mandatos eletivos, que proíbe as reeleições sucessivas. Nenhum político e nenhum partido deveria permanecer muito tempo no poder. A reeleição deveria ser proibida, e a regra estendida também para deputados e senadores. Creio que essa perpetuação de poder no Palácio do Planalto e, principalmente no Congresso Nacional, favorece escandalosamente a corrupção. As teias se formam e depois, é preciso um país inteiro se manifestar para tentar rompê-las, se é que elas se romperão.