Mazzaropi encerra programação especial de 15 anos do Curta Circuito

Últimas sessões vão exibir os clássicos populares do cinema brasileiro das décadas de 60, 70 e 80

O Puritano da Rua Augusta. Foto: Reprodução
O Puritano da Rua Augusta. Foto: Reprodução

No ano em que completa 15 anos de trajetória, a Mostra de Cinema Permanente Curta Circuito termina a programação comemorativa exibindo filmes que alcançaram êxito nas bilheterias na época de seus lançamentos. “Alcançar o povo é a maior das utopias e o maior dos desafios do cinema brasileiro”. Nas palavras do curador Affonso Uchôa, encontra-se a melhor explicação para a escolha do tema ‘Figuras Populares no Cinema Brasileiro’ como direcionador da curadoria do último bimestre de 2016 da mostra.

A primeira sessão acontece na segunda-feira, dia 18 de julho, trazendo o longa O Puritano da Rua Augusta (1965), dirigido, escrito e estrelado pelo ícone Amácio Mazzaropi, responsável por alguns dos grandes sucessos do cinema nacional. No Cine Humberto Mauro, às 20h. Após a exibição, haverá um bate-papo com o professor e crítico cinematográfico, Fábio Feldman. A entrada é franca, com retirada de ingressos 30 minutos antes da exibição.

Nesse bimestre, serão apresentados filmes que mostram a oposição entre um ambiente conservador e a busca por uma liberdade individual, que necessariamente se afirma em oposição a um mundo moralista. “Não nos enganemos, o cinema brasileiro nos ensinou: o melhor caminho pra liberdade é através do sexo”, afirma Affonso Uchôa. O puritano da Rua Augusta, comédia de Mazzaroppi, no entanto, é o menos “sexual” dos filmes exibidos nesse bimestre, mas já traz em seu plot a receita para cura de todo mal: pai de família conservador, membro de uma liga moralista, ao sofrer um ataque passa a se comportar de modo liberal, recuperando o apoio dos filhos e da esposa.

O Puritano da Rua Augusta | Amácio Mazzaropi, SP, 1965, 102’

O Puritano da Rua Augusta. Foto: Reprodução
O Puritano da Rua Augusta. Foto: Reprodução

Industrial puritano e conservador critica os hábitos modernos de seus filhos, fãs de rock’n’roll, e a rotina da esposa, uma madame que passa os dias entre encontros fúteis e chás beneficentes. Porta-voz dos bons costumes, ele adere a uma liga moralizante, mas, por conta dos conflitos com os parentes, adoece e vai parar num asilo. Tempos depois, já curado e disposto a se vingar, ele coloca em ação um plano de “modernização” pessoal para lidar com a esposa e os filhos.

Amado pelo público, mas não tão querido pela crítica – que o considerava simplório e previsível – Amácio Mazzaropi foi responsável pelos maiores sucessos de bilheteria do cinema nacional entre as décadas de 1950 a 1970, época em que existiam quatro vezes mais salas de cinema no país. Em 28 anos de carreira, ele participou de 34 filmes, desses seis figuram até hoje entre as 50 maiores bilheteria do cinema brasileiro (fonte: A Revista de Cinema).

Dois deles,  Casinha Pequenina (1963) e Jeca Tatu (1959), ocupam na lista o quarto e quinto lugar, respectivamente, com cerca de 8 milhões de ingressos vendidos cada. Mazzaropi fez do Jeca, personagem de Monteiro Lobato, seu cartão de visitas e tornou popular a figura do caipira esperto, macunaímico, capaz, com sua falsa ingenuidade, de dar nó nos espertalhões da cidade. Esse tipo de sagacidade é a única com a qual o povo brasileiro realmente consegue se identificar, pois, como se diz no Auto da Compadecida, a esperteza é a coragem do pobre. Paulo Emílio Sales Gomes disse que o segredo da permanência de Mazzaropi é a sua antiguidade: “Ele atinge o fundo arcaico da sociedade brasileira e de cada um de nós.” Essa foi a sua grande sacada. (Fonte: Agencia Estado)

Mazzaropi por ele mesmo

“Conte minha verdadeira história, a história de um cara que sempre acreditou no cinema nacional e que, mas cedo do que todos pensam, pode construir a indústria do cinema no Brasil. A história de um ator bom ou mau que sempre manteve cheios os cinemas. Que nunca dependeu do INC – Instituto Nacional do Cinema – para fazer um filme. Que nunca recebeu uma crítica construtiva da crítica cinematográfica especializada – crítica que se diz intelectual. Crítica que aplaude um cinema cheio de símbolos, enrolado, complicado, pretensioso, mas sem público. A história de um cara que pensa em fazer cinema apenas para divertir o público, por acreditar que cinema é diversão, e seus filmes nunca pretenderam mais do que isso. Enfim, a história de um cara que nunca deixou a peteca cair.”

Sobre o Curta Circuito – Cinema de Afeto

Com o tema Cinema de Afeto, o Curta Circuito completa 15 anos de atividade em 2016 e tem muito o que comemorar. Durante sua trajetória, a Mostra de Cinema Permanente, que exibe exclusivamente filmes nacionais, sempre com entrada franca, conseguiu reunir um público de mais de 70 mil pessoas, que estiveram presentes em quase cinco mil sessões. A mostra, que a partir deste ano é dirigida por Daniela Fernandes, da Le Petit Comunicação Visual e Editorial, é uma das referências em Minas e no Brasil como ação de formação qualificada de público, espaço de reflexão, debates sobre a cultura audiovisual e todos os aspectos que a envolvem, sejam técnicos, narrativos, estéticos, culturais e políticos.

Tendo já atuado em 18 cidades de Minas Gerais, São Paulo, Bahia e Pará, a mostra hoje foca no público belo-horizontino e tem como “sede” de suas exibições o Cine Humberto Mauro. Já passaram pelo projeto convidados como Nelson Pereira dos Santos, Zé do Caixão, Sidney Magal, Othon Bastos, Antônio Pitanga, entre outros. O Curta Circuito atua também na preservação e memória do cinema brasileiro, trabalhando na restauração de filmes, em parceria com a Cinemateca do MAM-RJ. A iniciativa recebeu Mention do D’Hounner em Milão, em 2013, pela restauração do filme “Tostão, a fera de Ouro”, da década de 1970.

Serviço

Filme |O Puritano da Rua Augusta

Bate-papo após a sessão com o crítico Fábio Feldman

Data | 18 de julho (segunda-feira)

Local | Cine Humberto Mauro | Palácio das Artes

Horário|20h

Entrada gratuita_ Sujeito a lotação do espaço

Classificação Indicativa| Livre

Capacidade da Sala | 129 lugares (ingressos poderão ser retirados meia hora antes da sessão)

O Curta Circuito é realizado com o recurso da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte. Patrocínios: BDMG Cultural, Tecar Fiat e Sambatech. Participação: Fundação Clóvis Salgado. Realização: Le Petit Comunicação Visual e Editorial.